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O mundo em que vivemos passa por um contínuo processo de renovação e quanto mais o tempo passa todo este sistema parece mais acelerado. O que até bem pouco tempo era analisado racionalmente, particionado e até sequenciado, está sendo rapidamente substituído por uma lógica de rede colaborativa, dissociado, segmentado e principalmente multidisciplinar. Em função da rapidez como as situações mudam, temos a impressão de que tudo se altera muito rapidamente e estamos sempre correndo atrás dos acontecimentos.
Mas temos que nos moldar, pois as transformações e o progresso são difíceis e inexoráveis, assim as situações em nossas vidas podem mudar em um piscar de olhos sem que sejamos consultados. Para podermos nos precaver, precisamos estar atentos ao que se passa a nossa volta e nos mantermos ativos para não sermos atropelados pelo processo.
Se pararmos para pensar, todos nós em algum momento fomos obrigados a nos tornarmos protagonistas e assumirmos a condução de nossas vidas ao invés de esperarmos que a providência nos agraciasse com a solução de determinada situação. Mas só o protagonismo não basta, para superarmos problemas e imprevistos que a vida nos apresenta, precisamos ser autoconfiantes e sobretudo resilientes.

Ser resiliente é possuir a capacidade de superar obstáculos e se adaptar. A psicologia, como método científico, classifica resiliência em resistência ao choque, à infortúnio. Contudo, esta expressão não está restrita ao campo da psicologia, ela é empregada nas mais variadas áreas do conhecimento, a saber: em administração, em ecologia, física e por aí vai.
O termo resiliência vem sendo bastante aplicado para representar traços do comportamento humano. Uma pessoa é considerada resiliente quando tem a capacidade de reverter uma situação de dificuldade e retornar ao seu estado costumeiro de saúde (física e mental). Desta forma, a definição de resiliência representa a capacidade de um indivíduo enfrentar e superar as tribulações da vida e se manter firme.
O comportamento de uma pessoa tida como resiliente, leva em consideração duas condições básicas: dificuldade e superação. Perante um contexto instável ou adverso, pessoas tendem a apresentar variados padrões de comportamento. Porém, o indivíduo resiliente possui a capacidade de assimilar o problema e reunir recursos para superá-lo. Esta capacidade não blinda ou torna as pessoas imunes. Ser resiliente não faz com que alguém saia sempre incólume de uma dificuldade, mas possibilita potencializar o atributo de superar um momento de dificuldade de forma eficiente, e de sair dela fortalecido.

Leon C. Megginson, professor da Louisiana State University, num discurso em 1963, onde apresenta a sua interpretação da ideia central de “A Origem das Espécies” de Charles Darwin afirmou que:

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.”

Mas afinal o que tem tudo isso a ver com a gestão financeira de um regime próprio de previdência?
Bem, em minha opinião tudo! Pois, nos últimos anos os RPPS vêm passando por uma série de mudanças em sua regulamentação, enfrentando crises econômicas e política, só para citar alguns acontecimentos.
Em termos de legislação, o direito previdenciário pode ser considerado uma matéria das mais complexas, pois além de requerer uma interpretação bem apurada está às voltas com uma série de cálculos que podem afetar o equilíbrio financeiro de um plano de benefícios se não forem realizados em conformidade com a norma e efetuados corretamente. Por este motivo requer constante atualização por parte dos envolvidos na gestão financeira e concessão de benefícios, além de o conhecimento aprofundado da legislação aplicável.
Mas quem pensa que as leis são voltadas especificamente para o setor de concessão de benefícios está enganado, pois passando pelas áreas de um RPPS, temos regras que regem a administração geral de um RPPS e normas especificas para a aplicação, manutenção e acompanhamento dos recursos garantidores dos planos de benefícios.
Nos atendo, mais especificamente a este último tema, os gestores dos RPPS passaram ao longo do tempo por situações onde o emprego de sua capacidade de ser resiliente foram exigidas. Quem estava à frente da gestão a partir do ano de 2007 verificou que com alguma habilidade e conhecimento foi possível superar a meta atuarial apenas mantendo uma carteira de renda fixa.

Os gestores dos regimes próprios de previdência precisaram exercer a sua capacidade de resiliência com a entrada em vigor da Resolução do CMN nº 3.790 em 24 de setembro de 2009 que estabelecia que de cada uma das aplicações previstas no artigo 6º, incisos I, alínea “b”, III e V tivessem como parâmetro de rentabilidade um dos subíndices do Índice de Mercado Andima (IMA) ou composição de mais de um deles, com exceção de qualquer subíndice atrelado à taxa de juros de um dia. Até então desconhecido pela maioria dos dirigentes.
Mais à frente em 2012, estes mesmos fundos apresentaram rentabilidade de 26,68%, bem acima da média, contra um retorno de 7,40% do Ibovespa. Entretanto, no ano seguinte este mesmo índice recuou 10,02% tomando de volta parte do retorno do ano anterior.
E mais uma vez os envolvidos na gestão dos recursos dos RPPS, a saber, diretores, conselheiros e participantes do comitê de investimentos precisaram exercer sua capacidade de resiliência, pois, em meio a uma pandemia que assolou e ainda deixa a sua marca no mundo e taxa de juros no Brasil chegou em um nível nunca antes observado, superar a meta atuarial e até mesmo igualar se tornou uma tarefa muito difícil, para não dizer impossível neste período.
O motivo desta aparente dificuldade está na resistência de alguns gestores em perceber que estamos vivendo novos tempos, em que a busca por um maior retorno passa obrigatoriamente por assumir um pouco mais de risco, pois com uma taxa de juros que chegou a 2,0% ao ano a busca pela rentabilidade que possibilitasse o crescimento do ativo previdenciário ficou impraticável.

Tratando especificamente do segmento de renda variável, o momento que estamos passando, representa um período de transição econômica. Certos setores sentirão mais dificuldades que outros, contudo, passada a turbulência tendem a se recuperar. Por outro lado, algumas áreas poderão até se beneficiar e crescer em meio a esta dificuldade.
Atualmente temos cerca de 436 empresas com ações listadas na B3, via de regra as empresas com melhor desempenho e capacidade de gestão em suas áreas. Estas empresas, a meu ver, apresentam maior probabilidade de recuperação e crescimento se comparadas a companhias de capital fechado.
Não podemos deixar de fora a possibilidade de investimentos no exterior que pode representar, aliado ao segmento de ações, uma alternativa interessante em busca de encorpar a reserva matemática do plano de benefícios dos RPPS.
Contudo, para exercer nossa capacidade de resiliência, devemos somar o conhecimento necessário para não sofrer prejuízos por entrar ou sair em momentos que não são oportunos. A busca por conhecimento é o que torna o investidor mais consciente e eficiente em suas decisões, pois o que se compra neste mercado é basicamente informação. Quem possuir e conseguir interpretar um maior volume de informações e aliar a isto a capacidade de resiliência tem grandes possibilidades de ser bem-sucedido e superar os obstáculos à medida que eles surgirem.

Manoel Junior